Vou fazer uma pausa por escrever sobre minha viagem. Hoje quero falar sobre amigos. Aqueles que, mesmo nos dias em que estamos mais acomodados, nos fazem tirar o pijama, as cobertas, o chinelo de dedo, colocar uma roupa legal e ir a um jantar, uma festa ou a uma mera reunião. Quero falar sobre eles porque acabei de voltar de um desses eventos. Um jantar, mais especificamente.
Um jantar completo. Pão, ricota, sardela, vinho, iergenmaster (ou algo assim) lasanha (e que lasanha!) e claro, na sobremesa pavê. Tudo que mais gosto. Entretanto o prato mais recheado foi aquele que saboreamos com a alma. As conversas na varanda, as piadas, mesmo que marcadas, a troca de experiências, os sorrisos, as fotos. Tudo estava perfeito.
Enquanto olhava para a toalha branca esticada na mesa, pensei em como, muitas vezes, sou mal agradecido com a vida, que me deu amigos e sabedoria para degustar momentos tão especiais.
Por isso, hoje estou feliz. Quero contemplar o que conquistei com carinho e companheirismo. Também devo agradecer àqueles que fazem parte desse império. Obrigado, camaradas, esta noite durmo mais tranqüilo.
"Like a rolling stone", Bob Dylan ou Rolling Stones
domingo, abril 02, 2006
"E aí, companheiro?".
terça-feira, março 07, 2006
Caminhos de um Eremita - Parte III
Meu destino estava lá, mas, eu não conseguia ver. Claro, pegando o caminho errado nunca se chega onde quer. Disseram “Pegue a rodovia Castelo Branco e entre no quilometro 78. Depois faça a interligação e vá até a Raposo Tavares, então é só seguir até o quilometro 100 e já chegou”. Não consigo nem seguir instruções decentemente, desde pequeno me perco nos lugares mais absurdos. Certa vez, quando estudava no Makenzie, logo no primeiro dia de aula, consegui perder-me no horário do intervalo e não pude retornar à sala. Alguns professores lembraram disso até o fim do ano, o que me dificultou bastante a vida. É uma vergonha.
Depois de muitos “Whata fuck!! Onde é que eu fui parar??”, consegui encontrar meu hotel (eu disse HOTEL, com “h”, assim como o maldito “heremita” que me encheram tanto o saco pra arrumar. Tá certo, tudo por um bom português) que ficava em frente a um Carrefour, perto da rodovia.
Chegando, fui resolver os problemas de instalação. Nome assinado e malas pra dentro. Começava minha empolgante jornada rumo ao desconhecido.
Com dez minutos de viagem já queria voltar. A TV do quarto pegava mal, o hotel era vazio e o andar inteiro fedia cigarro apagado. É, não podia deixar-me abalar pelas dificuldades e aridez do terreno, tinha que continuar, firme, forte e com um puta sono. E que sono!! Só conseguia pensar em dormir, mas, antes precisava tomar banho e escovar os dentes. Exatamente tudo o que não tinha no quarto. O que fazer? Foi aí que lembrei do Carrefour! Bendito seja!!
Guardei as malas, peguei a carteira, coloquei um chinelo e fui comprar sabonete e shampoo. No caminho fui me animando para ver a cidade. O vento estava favorecendo um bom clima para a noite levemente quente.
Com os acessórios comprados, voltei ao hotel e fui tomar meu delicioso banho. Delicioso não sei pra quem. Ao abrir o chuveiro, caiu uma água tão gelada que pensei que estavam de brincadeira comigo, só podia ser. E não tinha nada para mudar a temperatura da água. Pensei “Acho que ela esquenta com o tempo”. Sim, uns 20 minutos. Ótimo, adoro passar frio.
Banho tomado, faltava só escovar os dentes. Sabia que faltava alguma coisa. Volto a colocar o chinelo e o rumo do mercado de novo.
Dentes escovados, banho tomado. Agora sim! Jantei no restaurante do hotel e fui passear um pouco. Desci a avenida vendo as pessoas, os bares, os carros, tentando descobrir onde ia parar. Vi o céu da noite, que a muito não via. Essa caminhada sem compromisso me fez bem. Resolvi, então, parar num bar e pedir uma cerveja.
Beleza, estava eu lá, solitário, o homem da estrada pedindo minha cerveja gelada sozinho, como nos filmes de cowboy. Primeiro gole e penso “Da hora!”. Olho as pessoas rindo e divertindo-se. Os casais se beijando. Tomo o segundo gole e penso “Que merda! Que que eu to fazendo aqui sozinho??”. É, camaradas, ficar sozinho é bem estranho. Mais do que eu imaginava. Bem mais.
Pra não dizer que a noite foi totalmente perdida, vi um atropelamento. Uma moto atropelou um rapaz que subia a avenida a cavalo bem pelo meio da rua. O que dá na cabeça de um cara pra subir uma avenida movimentada a cavalo, com um galho na mão e virar de repente? No meio da rua!! Claro que seria atropelado! Logo que virou, percebi o que estava por acontecer. O barulho do impacto foi alto. O rapaz e a moça que estavam na moto voaram para o chão enquanto o safado do peão erguia-se para fugir em seu cavalo branco. Que cena bonita. A policia, como sempre, chegou atrasada. Adoro gente ágil, tanto o rapaz e seu cavalo branco quanto a policia.
Pedi mais uma cerveja. Queria ver se aquela sensação passava, mas, percebi que vinha pra ficar. Voltei ao hotel vazio e para meu quarto-cinzeiro. Dormir longe de tudo e de todos também é bem estranho. Quem sabe no dia seguinte não me sinto melhor?
Continua...
"Como vovó já dizia", Raul Seixas
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
Caminhos de um Eremita - Parte II
Começou Sábado, às 17 horas. Havia conseguido dissipar a adrenalina que me impedia de continuar, mas, antes de partir, precisava de dinheiro e combustível. A quantia certa, o tanque cheio, depois, apenas o largo e profundo horizonte. Assim, fui buscar a origem de meus anseios. Milhões de pensamentos invadiam minha cabeça preocupada mas, foram afogados com gasolina e triturados pela valentia de minhas rodas. O som alto, as músicas certas, o desafio e, finalmente, o horizonte.
Ele abriu-se como um sorriso brilhante e charmoso, prometendo sonhos. Segui a estrada, li as placas, meu destino já se anunciava. Chamava-me com pulmões fortes para que não desviasse, sua uma voz quente e reconfortante, instigava minha coragem para seguir em frente.
A música embalava meus sonhos de andarilho. Elas diziam para eu ser “racional”, para continuar naquele “caminho do bem”. Sem pensar muito, seguia as faixas brancas da estrada.
A chuva aproximava-se, o brilho do Sol começava a cessar. Algumas gotas, o vento um pouco mais gelado, a janela que se fechava parou pela metade ao perceber que meu caminho não era aquele. O Sol havia quebrado a barreira das nuvens e formado mais um de seus espetáculos. O caminho das chuvas não era o meu. As curvas levaram-me aos fachos de luz desenhados no céu. Diminuí a velocidade para tentar ver com mais clareza o que Pachamama queria me mostrar mas, a beleza ofuscou meus pensamentos. Azul, preto, amarelo, laranja, vermelho, anil e o dourado. Todas as cores estavam presentes enchendo meus olhos de encanto.
Um carro passa velozmente. Desperto de meu transe e percebo que é hora de voltar os olhos para a estrada. O velocímetro gira rapidamente para a velocidade de cruzeiro. “O que vou fazer quando chegar lá?”. O vento areja minhas idéias e leva meus ferimentos pra longe. Sentia que estava em casa naquela rodovia. Sem preocupações, sem ancoras, sem batalhas, só o vento e a música. A música, minha companheira inseparável durante os dias de viagem. As trilhas de minha vida.
Adiante, uma depressão e uma subida. Ao aproximar-me do topo, vou descobrindo um brilho forte. Era ele de novo. O Sol. Pintava as cidades próximas e a estrada com raios dourados que corriam do alto, dançavam entre as nuvens e beijavam a terra. Cidades e arvores de ouro cegavam meus olhos embasbacados. Um caminho dourado que prometia a glória final de minha jornada abria-se cada vez mais. Sorrir foi inevitável. Não acreditar foi impossível. As lágrimas secaram. A esperança renasceu e me fiz forte de novo. Meus demônios acovardaram-se e minha coragem floresceu novamente.
Já sentia os efeitos de meu ato. Restava, agora, chegar.
Continua...
| "El Mariachi", Era uma vez no México |
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
Caminhos de um Eremita - Parte I
Ok, ainda não decidi sobre o destino de minha viagem, apenas sobre algumas definições: MP3 Player emprestado calibrado com The Doors, Elvis, Buenavista Social Club, O Rappa e Rolling Stones, roupas, refrigerante, alguma leitura e um guia. Falta definir mais algumas coisas, mas é só o caso de parar pra pensar melhor.
Acabei contando para meus pais sobre a minha pequena aventura pelo estado. Meu pai, sempre calmo e seguro, perguntou o porque e confiou, mesmo que só aparentemente, em minha decisão. Minha mãe, coitada, esta tentando me convencer até agora que não devo ir. Mas, vou, com chuva, sol ou neve (o que vai ser bem difícil).
Chamaram-me pra ir a muitos lugares, mas, vou sozinho, mesmo. Peguei gosto pela idéia. Já me disseram pra: Tomar vergonha na cara, levar papel higiênico, ficar em casa, ir e não voltar e, o mais bizarro de todos, tomar cuidado para não me enfiar no meio do mato, ter o carro roubado, ser estuprado e sair feliz por aí andando a pé. É, essa realmente não vai acontecer.
O importante é que tem alguma estrada que vai me levar a algum lugar desconhecido, cheio de desconhecidos e cheio de novas possibilidades. Falta descobrir onde é esse lugar e, para isso, estou procurando sugestões. Ouvi falar sobre Trindade, "o paraíso na terra", Parati, Amparo, Brotas e suas cachoeiras, Guarujá, Floripa, Barra Bonita, Ilha Grande, Ilhabela e suas belezas, São Sebastião e muitos outros lugares. Não sei qual caminho vou seguir, se alguém quiser dar algum palpite, eu aceito.
E aí, você conhece algum lugar a no máximo 3 horas daqui?
| "Clandestino", Manu Chao |

